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Nuno Fonseca

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salvando donzelas, safando-me de apertos e disparando em aliens sempre que possivel
June 27

Circulo de Leibowitz – Mindbridge, de Joe Haldeman – 2ª Parte

Eis que, surpreendido pela morte da Farrah Fawcett - desculpem lá os fâs do rei do pop - e por algumas outras vicissitudes da minha gloriosa vida privada, não pude postar este texto ontem (ou melhor, dia 25, se bem que para os que de nós fazem horários paralelos mas desfasados às 24 horas normais isto já não deveria acontecer) como prometido. Porém aqui segue a última parte do texto sobre Mindbridge. Espero que o conjunto seja do vosso agrado ou, pelo menos, útil.

III

Os temas

Sendo basicamente uma história de Primeiro contacto, há códigos observáveis que parecem evidentes: um grupo de humanos, interdisciplinar, internacional e plurirácico obterá melhores resultados, assim como uma organização com contornos militares, também ela internacional. Isto até entrou no código da Golden Age, pelo que fracamente poderia ser considerado uma crítica. Já não tanto assim, o papel que o indivíduo, e em especial o personagem principal, detém no seio desse grupo.

Fugindo a todos os lugares comuns do género à data, Lefavre é a antitese do protótipo louro, alto e espadaúdo, com síndrome de “pequeno engenheiro” (o personagem capaz de resolver as mais incriveis situações com recurso ao próprio engenho, especialmente ao último momento). Aliás, este personagem está igualmente tipificado numa outra personagem secundária do romance (Gus), e é curioso que as relações entre ambos são sempre tensas, de desagrado mútuo mas tolerância normal básica (apesar de haver escaramuça óbvia, principalmente quando ambos são “chamados” à performance sexual obrigatória). Sabiamente, o assunto não é demasiado usado, já que só marginalmente relevante para o enredo principal. Porém ajuda-nos a dar dimensões a Lefavre.

Lefravre não é americano ou muito americanizado (é curiosamente suiço, uma boa escolha para não o tipificar muito em termos genéticos), e apesar de estar presente em vários dos momentos-chave do romance, é quase sempre um personagem não directamente interveniente. Sintomaticamente, num dos contactos mais importantes, ele até será nocauteado antes de poder “fazer” seja o que for, quanto mais proezas heróicas – e a cena é exemplarmente “acabada” com a exibição de um olho negro no seu rosto, ferida tipicamente humilhante ao espirito do duro da cobóiada espacial.

E aqui podemos inserir outra das temáticas, talvez das mais importantes que correm paralelamente dentro do romance: a relação dos sexos. Em “Guerra Sempre”, Haldeman agradara às hostes feministas da FC (e não só) com a forma natural como lidara com o assunto, escrevendo sobre unidades militares mistas e muito pouco tabu sobre a nudez em tal ambiente (algo que 30 anos depois ainda incomóda algumas almas bacocas como pode ser visto nas cenas de tensão sexual na seriezinha Star Trek que anda a passar nos nossos ecrãs nacionais neste momento, ou de forma meno sóbvia, na última versão da Battlestar Galactica). Em Mindbridge, o tema é levado um pouco mais longe. Trabalhando sobre a base do livro anterior, é engraçado notar que a maioria das personagens fortes são femininas (os que comandam as unidades de “Tamers” em missão são sempre mulheres), e que a minima tentativa de realçar diferenças qualitativas de género é por todos os personagens condenada (há uma cena em que é Lefavre sugere que o organismo telepático que eles encontram no planeta Groombridge funciona melhor com homens que com mulheres – e apesar de algumas provas iniciais poderem apontar nessa direcção, todos recusam a hipótese – uma sugestão que se revelará impossivel logo a seguir).

Não nos podemos esquecer que 76 é um ano em que a FC Feminista está plenamente em força, com várias figuras de proa, militantes e incontornáveis. E que até hoje, Haldeman é bem considerado por esse sector influente do meio. A razão são as formas equilibradas como ele sempre toma os assuntos que podem ser influenciados por questões de género. O facto de ele fornecer situações e conclusões satisfatórias nesse meio, ajudou-o a cimentar-se como um nome a ser ouvido inteligentemente. Essa legitimação, principalmente a nivel de crítica, passou a ser muito importante na época, e ainda hoje se faz sentir. Podemos dizer com segurança, que Haldeman assume nestas questões uma posição equilibrada, segura, com graça, e despreconceituosa (não esqueçamos que estava-se no auge dos filmes de sexploitation e no boom inicial da industria pornográfica, pelo que o assunto era tudo menos culturalmente pacífico nos EUA); em termos de voz literaria, e apesar do género sempre ter sido mais apto a ideias de tolerância formal, isto não era muito normal. A caminhada para a igualdade dos sexos na FC, dentro e fora dos livros, só começara a ter expressão nos anos 50, algum desenvolvimento na década seguinte, mas acompanhou o weltanschaung dos anos 70.

É no estudo romanesco das ligações telepáticas através do bioorganismo referido (a Bridge ou “Ponte”) que o assunto da telepatia e da relação dos sexos, bem como a postura do individuo face ao tema, se tornam interessantes. Acontece a meio da história, após a descoberta desse organismo e antes do primeiro contacto extraterreno “a sério”, o que nos dá a noção de que é uma temática importante o suficiente de moto próprio para ser levada em conta sem grandes problemas sitacionais directamente relacionados com os eventos do enredo principal. É aqui que observamos como, no interesse da Ciência e de alguma curiosidade hormonal primordial, Lefavre e Carol, colegas de missão, decidem levar a cabo a experiência de fazerem amor enquanto ligados telepáticamente. Todo este capítulo está deliciosamente bem escrito e construído, desde o discurso e diálogo telepático, às reacções de ambos antes, durante e pós sexo. E é curiosa a conclusão geral a que chegamos ao ver a experiência a desenrolar-se; algo que a meu ver está espectacularmente bem concebido: ao invés do esperado pelo senso comum, ou seja, a comunhão maravilhosa de mentes, o que observamos é o potenciar das sensações individuais, tanto positivas como negativas; questões como a da partilha de fantasias nunca reconhecidas ou dos efeitos da absoluta quebra de privacidade, tornam-se muito importantes neste esquema. Numa nota de apreciação, achei bonito que este capítulo amoroso (o sexto) tenha sido organizado em termos musicais, mas o efeito é, avisa-se, bem mais que puramente estético ou relativo ao meu gosto: é relevante. E termina com um comentário sublime, de inevitável referência shakespeareana, usando de uma alegoria ipecável como o falar de um novo género musical que não é novo (música neo-elizabetina), e demonstrar como os seus fundamentos são universais e intemporais através das letras do bardo, muito aptamente retiradas do “Much Ado About Nothing”

Mas as relações entre homens e mulheres não se dão somente em trabalho ou na cama. Por vezes, e quando em situações extremas, os esquemas normais de funcionamente são subvertidos ou reforçados, e este é um campo em que a FC consegue ser examplarmente inovadora em relação às banais histórias de traição e papel feminino da literatura mainstream ou realista. Neste mundo futuro a meio do séc. XXI que Haldeman nos apresenta, é posto o problema de como colonizar outros planetas. Se bem que através da teleportação consegue-se ir para fora do nosso planeta, na situação proposta acontece que não se fica lá indefinidamente. Mais ainda, tudo o que for um artefacto alienigena (comida ingerida ou bebés concebidos extraterenamente), regressam automaticamente ao planeta de origem. A solução é básica e amoral: convence-se gente, homens e mulheres, a conceberem filhos noutros planetas e a deixá-los lá (devidamente acompanhados claro). E todos os agentes da AED são contratualmente obrigados a cumprir missões de procriação para o efeito. Homens tornados temporariamente em sementais e mulheres em parideiras e, note-se, sem respeito a vinculos pessoais duradouros…e os Tamers fazem-no voluntariamente. Como se fosse éticamente aceitável prescindir de certos valores…e curiosamente uma das respostas será sim, principalmente quando há bens maiores em causa (continuação da espécie sendo a mais forte de todas). O assunto não é fácil de ponderar, mas está bem explorado, mesmo a nivel das relações interpessoais. Nem que seja pelo facto de que todas elas e todos os individuos, enquanto personagens, contêem falhas relevantes. O que nos transporta para outra área temática.

Não há pessoas, cenários ou situações em Haldeman. Bem se poderão encontrar personagens redondinhas, sem ponta por onde se lhes pegue, que não serão encontradas.Toda a tecnologia e ciência possuem igualmente importantes falhas ou caracteristicas negativas. E o mesmo se pode aplicar às situações. Esta simetria de propósitos é um puro acto estético do autor, o veículo através do qual ele constrói a obra. Não será tanto um análise de conflito entre pares aparentemente opostos, como o pôr em jogo todas as verdades estabelecidas, quer dentro quer fora do romance. E neste momento eu recordo um singelo pormenor que me delicia: o livro tem pouco mais de 220 páginas, mostrando como é obvio conseguir boas coisas sem produzir calhamaços de dezenas de enredos e aventuras. Quando atrás afirmei que Haldeman usava aqui de alguma tecnica hemingwayana (perdoe-se a expressão), falava precisamente na contenção frásica e na necessidade de carregar simbólicamente todas as situações e cenários do texto. Não é fácil, mas à epoca, Haldeman era um escritor no auge das suas energias criativas. A procura constante da “falha”, do que pode tornar um tropo, etc., num mecanismo literário interessante, é algo visto dentro da FC como sintoma de maturidade cultural. Histórias sobre tecnologia que está em degradação, ou que não é perfeita, são preocupações culturais a partir da New Wave. Mas exemplifiquemos um pouco, para que o leitor o perceba: Lefavre tem treino e inteligência suficientes para ser considerado um personagem-herói, mas luta contra a sua irascibilidade, contra a imagem paterna,  e está entregue aos caprichos da sorte comportamental e do destino genético; a relação que vai construindo com Carol está sempre exposta a separações com potencial de serem emocionalmente dolorosas; os verdadeiros aliens, quando encontrados, só nos querem matar, a telepatia pelas “Pontes”, em certas circunstâncias, mata; a teleportação tem riscos muito calculados mas incontornáveis; terraformar ou colonizar um planeta é perigoso, e só se consegue à custa de intensos e significativos sacrifícios; etc. etc. (é dificil escolher o que particularizar ou não quando se pretende não “estragar a leitura” ou seja, mostrar aqui “spoilers”, pelo que se quiserem, será melhor levar isso em conta no parágrafo seguinte).

Até o contacto com os aliens, quando acontece, é todo ele visto como uma natural série de mal-entendidos. Tanto da parte dos humanos como dos extraterrestres. E é para isto que toda a história aponta. A posteriori, até isto é relevante para as ideias de género contidas no romance. Mas é tudo delicioso: espanto dos espantos, os aliens são iguais a nós; ou não bem; tudo se transforma num banho de sangue por dá cá aquela palha; as “Pontes” não são propriamente seres inteligentes e não contam a não ser como artefactos alien. Diante de situações clássicas, tudo corre de froma diferente e inesperada, seja na autópsia aos aliens, como na resposta ao “vamos ver se vale a pena deixar-vos viver e entrar na comunidade das civilizações”, esta acaba por ser mitigada pelo tempo e pelas nossas reais capacidades como espécie, e não graças à intrepidez ou engenho de qualquer indivíduo (apesar do papel destes ser resguardado e usado por conveniência de história). Mas como esta é a parte das conclusões ou objectivos principais do livro, passarei a bola às capacidades do leitor.

Como última nota, gostava de apontar algo: a ausência desse grande tropo impossivel da FC que é a viagem no tempo. Está explicitamente ausente neste romance. A teleportação, por exemplo, é instantânea. Porém…vêmo-la contemplada na própria estructura do enredo: há variadas viagens no tempo dos personagens e do mundo em que vivem, no calor recluso das 53 partes do livro. Viagens que nos revelam tanto da história como o que nelas está incluído. Sem destapar surpresas, atentem às datas de todas as passagens e verão que por vezes há importantes diferenças de séculos.

Chega disto. Importava aqui dar indicações sobre as principais temáticas, o que fica feito. Mindbridge é um livro que delicia pela concisão de temas, que brilha pela facilidade com que tudo nele é conjugado. E há uma energia própria gerada pela estructura variável de capítulos com maior e menor tamanho, de partes mais ou menos expositórias ou narrativas tout court. E a história é gira, os personagens interessam-nos. Para além de que a passagem do tempo só hoje se nota em pequenos apontamentos, durantemente insuspeitos (por exemplo, aparece um e-book nesta história, mas não tem pilhas e está ligado à corrente; existe uma máquina capaz de transcrever o discurso de Lefavre para letra impressa, mas as falhas não são aquelas a que o software que hoje temos para o efeito denuncia, embora esteja perto, muito perto).

Ler Joe Haldeman é sempre um prazer. Neste caso em particular, Mindbridge é uma leitura sempre interessante. É assistir a um escritor na plena pujança do seu output criativo. Altamente aconselhável. E despeço-me com o aconselhamento de mais dois livros do autor: The Long Habit of Living (num mundo futuro onde quem tem dinheiro pode vencer a morte e rejuvenescer, Dallas Barr tem animadas aventuras para o conseguir voltar a fazer mais uma vez; o problema é que gastam literalmente toda a fortuna no rejuvenescimento…) e The Hemingway Hoax (que já descrevi como sendo uma fantasiosa hipótese decontornos paracientíficos em torno do episódio de vida real em que Hemingway perde os manuscritos de todas as seus primeiros contos). Se alguém se interessar por uma vertente um pouco mais juvenil, escolham a trilogia Worlds ou o There Is No Darkness (escrito a par com o irmão). Nos últimos tempos, a prosa de Haldeman está mais calma, menos explosiva, e alguns dos livros começam a ler-se mais como travellings ou cartas de amor ao séc.XX, mas nem por isso deixam de ser agradáveis (exemplarmente, The Guardian e “A Máquina do Tempo Acidental” *). Seja como for, espero que gostem da leitura.

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* O texto crítico a esta obra, que previamente anunciei como estando para sair hoje, sexta-feira no site Orgia Literária, foi transferido para a próxima 6ª, dia 3, por motivos editoriais.

 

Textos sobre Mindbridge no âmbito do Circulo de Leibowitz:

Rascunhos – Cristina Alves

Blade Runner – João Seixas

June 24

Círculo de Leibowitz - Mindbridge, de Joe Haldeman – 1ª Parte

Preâmbulo

Foi no final da minha adolescência que, por um feliz acaso, descobri este precioso livro, entre os três de FC que existiam entalados por uns, igualmente raros à época, comics americanos, numa baixa prateleira de uma livraria que já não existe. Os outros dois eram versões para estudantes de Inglês, notáveis edições com vocabulário limitado e algum resumo da acção – e tratava-se de uma colectânea de contos de Robert Heinlein e de Rendez-vous with Rama, de Arthur C. Clarke, o que como viremos a perceber, é de uma excelente serendipicidade. O tempo era o dos anos 80.

Para alguém que andava ainda a aprender inglês na escola, o livro estava nas bordas do compreensível, mas de algum modo a sua qualidade deve ter entrado no meu cérebro, porque desde a primeira leitura, nunca mais deixei de o reler.

A 4ª re-leitura aconteceu por ocasião dos 1ºs Encontros da Simetria em Cascais em 1996, um evento genésico da comunidade de FC & F em Portugal, e o motivo foi o de que Joe Haldeman seria um dos convidados presentes. A estrela do evento, se bem me lembro, era outra: Brian Aldiss. Mas os nomes que alguns já então reconheciam de Haldeman, Charles Brown, David Pringle, Gwyneth Jones, eram pesos pesados do género, sem dúvida com interesse por este novo mercadozinho sui generis à beira-mar plantado. Entre as inúmeras pessoas que conheci no evento, Gay e Joe Haldeman foram das mais simpáticas. E para não retardar mais o asunto, revelo o diálogo que mais me impressionou, ocorrido entre os três, com Haldeman nervoso e à espera do momento de entrar para o Teatro Gil Vicente de modo a dar a sua palestra (cujo tema não recordo).

Recordo de ter dito, em jeito de Desbloqueador de Conversa, que Mindbridge era um dos meus livros de FC favoritos (e era - e ainda é). Haldeman, primeiro não ligou muito, mas Gay, a esposa, disse logo que era uma boa escolha, tanto mais que o livro era mesmo sobre ficção científica.

Como assim? perguntei. Gay pediu a Joe para explicar. Este começa a explicação com os olhos meio distraídos, mas em breve ficou imerso nas próprias palavras, com o entusiasmo que hoje reconheço típico do autor que conseguiu fazer algo de que se orgulha com uma obra sua.

Parece que ele resolvera pegar em vários tropos da FC, aqueles considerados mais comuns e aceitadamente impossíveis (teleportação, aliens, telepatia, etc.) e dera-lhes uma roupagem de especulação científica, de modo a fazer um discurso sobre o género. O meu cérebro da altura, reteve bem a premissa, embora não tão bem a parte final. E não ligou muito à conversa ou ao conteúdo. Pelo menos julgou que não.

A realidade foi muito diferente. Nos últimos anos tenho descoberto que o livro e a conversa determinaram muito do que eu sei e penso sobre a FC. Se terá sido por causa da minha idade, do momento, ou por um acaso de interesses, não o sei dizer. Quando surgiu o momento de escolher um livro para ser analisado no âmbito do Circulo de Leibowitz, vários livros me passaram pela cabeça: Slan de A.E.van Vogt, Cidadão da Galáxia e Os Manipuladores de Robert A. Heinlein,  Mundo sem Morte de Philip José Farmer… tudo livros relativamente pequenos, importantes clássicos do género, e quando chegou o dia de escolher, a decisão saiu-me abrupta e inesperada no e-mail para todos os meus colegas críticos do Circulo – Haldeman, Mindbridge.

Há pelo menos uns dez anos que não o relia. Mas se é verdade que os olhos estão mais cínicos, o cérebro mais armado, o certo é que o conhecimento sobre o livro bem como o respeito,  aumentaram consideravelmente…agora com uma ponta de afectuosidade madura a somar à adolescente. Desapareceu o “punch” emocional, o fascínio incomensuravel pelo maravilhoso, gerados pelas primeiras leituras, mas sobreveio o reconhecimento boquiaberto pelos feitos de estrutura-e-conteúdo, com a energia inocente e durado jovem Haldeman.

O que nos leva à primeira parte desta crítica, ao suminho, ao osso, àquilo que nos traz aqui.

 

I

Mindbridge foi publicado em 1976. A New Wave fazia os seus pirotécnicos estragos entre o storytelling típiconorte-americano, soltando contínuas bombas massivas sobre as temáticas Golden Age anteriores. De repente, na FC, tudo era possivel; até fazer literatura séria, inteligente, para gente inteligente; até mudar a sociedade e o mundo.

Joe Haldeman, um universitário de Astronomia enviado para o Vietname, passa a comissão de serviço a ler Heinlein e a escrever notas entre as batalhas. O resultado, após o regresso à vida civil por cortesia de uma ferida de guerra, foi The Forever War (“Guerra Sempre”, Publi. Europa-América, Col. Nébula, nº 94) e apanhou a comunidade de FC de chofre. O livro era uma crítica feroz ao Vietname, à Golden Age, e em específico ao mítico Starship Troopers de Robert A. Heinlein (Soldado no Espaço, Ed. Livros do Brasil, Col. Argonauta, nº 129, com re-ed. na Editorial Notícias mais recente, com o título Soldados do Universo). Com esse primeiro romance, Haldeman estabeleceu-se como uma das mais importantes vozes americanas na FC, mas o certo é que os livros que se seguiram, bem como os contos, foram igualmente brilhantes. Entre eles este Mindbridge.

Como acontece sempre com Haldeman, a prosa é de fácil digestão. As frases simples e claras, as situações e personagens suavemente delineadas e interligadas de modo a produzir um discurso corrente e sem percalços de estilo. A pirotecnia conceptual começa a parecer evidente por algo que aos poucos notamos na leitura. Há 53 partes, a que convencionalmente chamamos capítulos, mas conforme avançamos na leitura, reparamos que o Primeiro capítulo aparece nomeado como tal na parte 5; o Segundo na 7, etc. Mais ainda, o número de partes que compõem um capítulo variam, podendo ir de duas a cinco. Voltando para o índice com títulos, percebemos que há somente uma secção prambular e 15 capítulos. É então que se repara noutras coisas, como na dedicatória do livro: “para (…) e para John Brunner e John dos Passos, pro forma”.

Na minha anterior crítica para o Círculo de Leibowitz, sobre o River of Gods de Ian McDonald, falei que ele era uma tentativa de retomar, em roupagem moderna, as experimentações com a multi-narrativa feitas por influência de John dos Passos e na FC, notoriamente por John Brunner. Deveria ter apontado igualmente para este Mindbridge. Porque a narrativa não é a convencional, seja na terceira pessoa, ou na primeira, mas inclui ostensivamente outros registos, como o da entrevista, do relatório, do spot publicitário, peça de teatro, programa de rádio, etc. E note-se que estas secções (cada uma, constituindo uma Parte na estrutura formal do romance) não são somente ilustrativas ou dependentes das de narração clássica, mas fazem parte integrante da história, visto que em cada uma encontramos elementos que nos fazem evoluir no enredo, se bem que também o revaloram constantemente. Ou seja, Mindbridge é uma história convencional contada de forma não-convencional.

E faz-se a primeira luzinha de Prof. Pardal na cabeça: não é nisto que deve consistir a literatura de ficção científica? A meu ver, e em boa parte, sim. Era um dos objectivos principais da New Wave, o destruir o discurso simplista da Golden Age e revalorá-lo com a densidade dos meios técnicos da boa literatura. Entre outros úteis recursos, com a desconstrucção óbvia dos seus personagens-tipo e necessário enrobustecimentoda caracterização.

Passemos então ao motor do enredo, ao fio da história, que é Jacque Lefavre, o personagem principal do livro, embora não o seu mais importante protagonista. Tipicamente em Haldeman, Jacque é um homem grande, roçando o gigantismo (uma fixação do autor que confesso não compreender, a não ser usando de algum esforço criativo, como metáfora com pernas da superioridade das personagens multidimensionais das obras New Wave, o que me parece um pouco rebuscado (isto acontece em outros livros do autor, como por exemplo na trilogia “Worlds”, ou no “There Is No Darkness” escrito a meias com o irmão, Jack C. Haldeman). Também como de costume, a personagem tem uma falha de caracter que o determina, neste caso uma demasiado fácil irascibilidade, com a qual Lefavre convive desde miúdo. O preâmbulo do texto, ou seja, as partes de 1 a 4, são-lhe especialmente dedicadas, ao mesmo tempo que se dá uns laivos de encenação e estabelecer do enredo:

Jacque Lefavre é um jovem de cabeça quente, recém-saído da “Academia” da Agência de Desenvolvimento Extraterrestre. As duas primeiras partes colocam-no no final do curso para ser um “Tamer”, um agente capaz de missões em planetas distantes, com o objectivo de serem terraformados. Nesta secção é também explicitada a questão generacional, sob uma das alegóricas formas que tomará no romance: a de como há uma clivagem abismal e aparentemente insolúvel entre a nova e a velha gurda da FC; isto acontece na imagem que nos fica da relação entre Lefavre e o pai, com quem manteve uma convivência cheia de conflitos.

O Primeiro capítulo iniciará o enredo propriamente dito, ou acção, com a descrição da primeira missão extraterrestre de Lefavre. A viagem é executada através de um LMT ou Transmissor de Corpos à Distância (um mecanismo que usa um processo prescientemente explicado com recurso à física quântica). É de notar outra carcterística do universo Haldemaniano, o facto de as mais importantes descobertas científicas serem-no por acidente (ver, por todos, o seu último livro publicado entre nós, A Máquina do Tempo Acidental, Publ. Europa-América, Col. Nébula, nº 105 *), uma ideia muito tributária do que acontece na vida real, embora nas mãos do autor, adquira uma certa aura de facto maravilhoso per se.

Não descreverei muito mais a nivel de estrutura. Digamos apenas que os 15 capítulos serão dedicados a responder a uma pergunta apenas, uma pergunta clássica da FC, que consiste em saber de que forma se procederá o nosso primeiro contacto com espécies alienígenas. Para dar umas luzes do que estará em jogo, recorde-se o filme “O Dia em que a Terra Parou”, como sendo a típica (e simplificada) abordagem Golden Age a este assunto de Primeiro Contacto, uma história onde uma alien vem à Terra para julgar se os seres humanos serão dignos de pertencer à comunidade galactica de espécies desenvolvidas, se poderão ter ou não o potencial de crescer, sob pena de o planeta ser completamente erradicado de vida humana (o filme foi recentemente objecto de um pálido remake, com um habitual Keanu Reeves a fazer de alien; curiosamente, aquilo que falha neste remake é precisamente aquilo que Haldeman criticou indirectamente com o seu Mindbridge em 76). Ou seja, temos o plano delineado à partida, de falar sobre a FC, com um discurso próprio, o da crítica New Wave, e com meios típicos, os tropos do costume (teleportação, aliens, telepatia – todos reputadamente impossiveis ou inexistentes na vida real).

[continua dia 25 de Junho, com uma parte II dedicada à exploração temática da obra]

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* A propósito deste The Accidental Time Machine, sairá uma crítica minha ao livro na próxima 6ª feira, dia 26 de Junho, no site Orgia Literária

June 03

FC Niús

Ray Bradbury, ou melhor, um conto dele, adaptado e posto em cena no Teatro Quinta da Parede no Porto.

 
Acendeanoite
by quintaparede

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E amanhã, no âmbito da I Mostra de Cultura Espanhola em Portugal :

Ciclo de Cinema: “Cinema espanhol: ¡ fantástico ! ”
19h00
Mortadelo y Filemón: salvar la tierra, de Miguel Bardem
21h30
3 días, de Javier Gutiérrez
no Cinema São Jorge

June 02

Virtudes Lusas

Para não variar, eis que continuamos a pontificar pelo “desenrasca”, mesmo que esta seja a época dos coca-bichinhos formalistas e certinhos.

Caravelas? Satélites? Bah! Chegamos pra todos.

De forma pouco elaborada, a ver aqui.

May 21

Circulo de Leibowitz – River of Gods, de Ian McDonald

RoG_ 

Tudo neste livro fascina e cria água na boca. Uma água tão sagrada e suja como a do Rio de deuses que lhe dá o nome, o Ganges, a alma dos povos da India.

River of Gods um livro do qual se gosta tanto pelo que consegue, como pelo que falha, o resultado de um quase hipnótico, quase mântrico, uso da lingua escrita, com pinceladas de enredo e fútil manipulação de grandes conceitos de quase filosófica ficção cientifica. Mas, se bem que o texto esteja pejado de linguajar hindu, o certo é que tudo em RoG exsuda preocupação britânica. Resultado (e não reflexo), penso, da própria relação que os ingleses sempre mantiveram com a Índia: uma cultura virtual, que exerce sobre os britânicos um misto de fascínio pelo exotismo, pelo inacreditável funcionar de uma sociedade intensamente estratificada e pela intensa noção de estranheza, de alienação que nela podem encontrar...facto que por inúmeras vezes o autor comenta através das personagens. Entramos lentamente neste panorama, pelas mãos de um início muito indiano, mas depressa a cortina esfuma-se, pelo que a reacção somática do leitor vê-se rapidamente a braços com o cricket, a ascensão social e Bollywood, imerso na força viva da sempre eminente multidão indiana, encostado pela pressão sócio-demográfica, das forças económicas e comerciais mais importantes do terceiro mundo, dentro de um país de mitos vivos (e neste romance, literalmente vivos). Talvez não seja difícil perceber as razões pelas quais McDonald, sendo inglês, resolveu tomar este caminho: os indianos (incluindo a variante paquistanesa e muçulmana) estão de entre os mais numerosos emigrantes na Grã-Bretanha, e a ligação entre os dois povos é historicamente impressionante…para além de que a própria história exigia um setting assim, um país de terceiro mundo com recursos principalmente.

Porém, trata-se de uma India alternativa, a nação de Bharat, a braços com uma crise económica de raiz ecológica tremenda: o periodo das monções não se faz sentir à dois anos. Podemos seguir, em tom de fundo, a forma científica e simples como o problema começa a ser resolvido (com recurso a um iceberg). Esta tensão crescente da falta de chuva, de uma guerra eminente (tanto civil como com países vizinhos), acompanhará todo o romance… e tudo estalará evidentemente. Entretanto o princípio é todo ele particularizado em personagens e nas suas vidas, vidas que se cruzarão das mais variadas formas, numa dinâmica muito muito rica. Tão rica como a própria India à beira do Ganges, e é aliás aí que tudo começa, sintomaticamente com Shiv, um traficante de orgãos femininos em torno de um corpo de rapariga; um traficante cuja vida está prestes a ser radicalmente mudada, que irá torná-lo num criminoso mais duro e diferente. A vida normalmente faz-nos isso. Notarei aqui outra marca britânica do romance, entrevista na relação entre Shiv e Yogendra, o rapaz que funciona aqui como o seu sidekick; é titpicamente inglesa este uso de personagens-duplas, em que um master não existe na e para a história sem um ajudante. Curiosamente, podemos entrever este tipo de relação em todos os personagens de RoG…

Há também um polícia da Unidade Krishna, que vive num mundo de deuses tornados quse reais, descurando a vida pessoal. Deuses que são IA’s legais modeladas segundo o panteão hindu. Tal como Deckard em Blade Runner, Mr. Nandha é um polícia que caça, neste caso IA's que fogem ao controlo humano. É a partir daí que as semelhanças começam a divergir, e depressa vemos que ele não persegue os andróides de Dick (que eram a progressão lógica da ideia de robot nos anos 60), aqueles que queriam viver mais do que os dois anos de vida com que eram inceptados de fábrica, mas IA's que supostamente ficam loucas, escapando selvagens para os construtos mecanizados do mundo real, sejam eles quais forem, de modo a simplesmente libertarem-se (há algo aqui de drama grego, de matar o pai, que ambos os autores ligam à loucura, algo que não desenvolverei para não oferecer spoilers, mas que é fulcral neste romancei). No processo, podem matar gente, e causar incalculáveis danos. O mais curioso é que enquanto Deckard amava animais e sonhava ter um vivo, ou pelo menos uma boa réplica, em RoG, é Parvati, a mulher do Sr. Nandha, quem tem um terraço onde cultiva plantas. A simbologia em torno de um desespero pessoal que busca um forte sentido vivencial é óbvio, e penso que Ian McDonald está de facto a referenciar Dick, bem como a comentá-lo. Durante o corpo do romance, Parvati revela-se bem mais importante do que o seu marido, e penso que isto se liga ao facto de uma das importantes coisas que McDonald pretende fazer com este romance ser comentar as noções e problemáticas de género, algo que estava muito difuso e indirecto em Dick.


Depois temos ainda a trama alienígena, com um familiar Big Dumb Object, um asteróide que faz algo aparentemente impossivel, e que chama à colação a existência de 3 outras personagens, Thomas Lull, Lisa Durnau, e Aj (a figura messiânica do romance).

E há o Neutro, um Yt (termo brilhantemente encontrado), pessoa que se alterou cirurgicamente para não ter qualquer dos dois sexos, e a quem pungentemente seguimos, mergulhando na sua tragédia pessoal, no como se envolve com um político conhecido, Shaheen Badoor Khan, também ele importante personagem do romance; algo que roça o melhor que se pode ver nas Holla! deste planeta mas, infelizmente, um campo onde McDonald falha um bocado; há um deficiente tratamento do apaixonar-se destes dois personagens, um processo que está imperfeitamente desenhado. Mas o drama deste Yt, é o contraste relacional com a existência de Parvati: enquanto esta sonha com uma vida de novela, o Yt (ironicamente um dos técnicos informáticos que trabalha precisamente na elaboração e manutenção dos conteúdos da maior telenovela bharatiana, a “Town and Country”) vive-a, apaixonando-se por esse elemento do governo que tem uma fixação obsessiva por Neutros, e há-de entrar a inevitável acção erosiva dos media nesta história, com ajuda de mais uma personagem, uma jornalista sueca de apetite físico voraz.


Por último, há o toque comercial, com o learesco drama de um industrial indiano a repartir o seu império entre os três filhos. Aqui seguimos um comediante, que fica com a parte de Pesquisa e Desenvolvimento desta empresa, e em como neste domínio se conjugarão universos paralelos, IA's que atinjiram a singularidade e que estão a agir de facto na sociedade humana.

Mas esperem! Atenção, porque há mais personagens e temas!

Esta caleidoscopia é tão mesmerizante quanto a própria cultura indiana.

Para mim o problema principal do livro é o facto de ele trair a tecnica principal que utiliza e não tanto o facto de conseguir ou não a desejada boa mescla de elementos. Na difícil linha dos romances de múltiplos personagens, ou que pretendem estabelecer grandes e estanques mundos semelhantes ao nosso mas devidamente extrapolados, o livro firma-se inicialmente bem no propósito, para a meio descambar na mera intriga de lençóis e de thriller e de mistério, sem nunca passar o testemunho, de forma total, para os campos da ficção científica…apesar de não ser possível pensar neste livro como sendo qualquer outra coisa que não isso. Deixarei ao leitor a conclusão final, a de saber se o autor se consegue ou não redimir do facto com um excelente final. Por enquanto, e marginalmente, note-se que quando a narrativa começa a querer mudar estes "tons" socorre-se da tecnica da introdução de novos personagens, o que num universo já cheio de outras torna o romance ainda mais caleidoscópico, de uma forma necessária talvez, mas que me desagradou pelo simples facto de o enredo só conseguir avançar devido à sua introdução, e nunca pelas qualidades próprias do "plot". Haverá quem goste, mas não serei muito apologista do facto. Outra consequência é a de que os elementos de FC cedem perante o drama humano de cariz novelesco, ficando este como o verdadeiro motor da história pela maior parte do livro, o que é também trair um bocado as frutuosas capacidades alegóricas, por alguns consideradas indispensáveis da própria FC. Não sou tão absolutista em relação ao tema, mas concordarei que a tecnica retira força às potencialidades do romance. Por outro lado, é inelutável o facto de que as mais geniais e literatas passagens do romance, são conseguidas à custa deste dueto de satisfação-insatifação, do qual são excelente exemplo os textos sobre Parvati e o amante (o jardineiro, um clássico) e o marido, o Sr. Nandha.

Não é fácil gerir um universo de várias personagens, e as principais são aqui muitas. A FC tem algum historial no facto, com algumas vitórias fabulosas, como o seminal Stand on Zanzibar de John Brunner, provavelmente "O" Romance que melhor sucede neste tipo de construcção narrativa (e aproveito para relembrar talvez a primeira tentativa, de Fritz Leiber, The Wanderer, por muitos considerada relativamente falhada), e o sucesso deu-se em grande parte ao uso das tecnicas desenvolvidas por John dos Passos (Manhatan Transfer, anyone?), com pózinhos de quase stream-of-consciousness modernista. Mas jogar muitas personagens, utilizar múltiplos tipos de discurso, muito diversos, colagem, etc, é algo que McDonald definitivamente não faz, mantendo uma coerência de estilo ao longo de todos os personagens, eventos e cenários o que, por vezes, cansa um bocado a leitura (não nos esqueçamos que se trata de um denso calhamaço de cerca de 600 páginas). McDonald executa uma fuga em frente estilística que, apesar de muito controlada, acaba por soçobrar perante as exigências do enredo…enquanto no cenário e na caracterização triunfa claramente.

Como o enredo, embora o chegue a parecer, não é complexo, abster-me-ei de o referir, mas ofereço as seguintes considerações.

Pertíssimo do fim, e acompanhando a gentil “iluminação” de uma cientista, Lisa Durnau

(responsável pela virtualização da vida terrestre Alterre), o autor dá-nos a explicação última do extraordinário e ontogénico evento do clímax do livro, e ao fazê-lo, comenta o mais britâncio e pos-moderno sentimento das letras inglesas, desde os anos 90 até hoje:

“A flecha do tempo voa em sentido contrário.”

Esta obsessão com a reversibilidade do tempo, que ocupa as preocupações estéticas dos grandes nomes da literatura britânica (exemplarmente, Martin Amis e Julian Barnes), e que na área da FC se tem reflectido nas temáticas da Singularidade e da crença absoluta da sua magna consequência, a saber, a űber-inteligência das futuras Inteligências artificiais (e.g. Ian Banks e Neal Asher), esta obsessão é o tema central, o eixo direccionado, a revelação pretendida, tudo o que lá quiserem enfiar…mas também algo que é no fundo um segredo de polichinelo mal utilizado, visto que é sempre obviamente um não-segredo, e sem grande força de alegorização.

É uma pena que seja somente nas últimas 200 páginas (num universo de quase 600), que o enredo e a acção mais relevantes invadam finalmente o livro (quase, mesmo quase satisfatoriamente). O livro e o incrível fresco indiano a que o autor se propôs, o que a meu ver é muito bem conseguido. Mas a pena advém de que nesse momento, que surge pouco a seguir a metade do livro, vemo-nos na posse indiscutível de todos os dados necessários para adivinhar absolutamente tudo o que se irá passar a seguir, mesmo a nível das ideias e dos conceitos. Ou seja, o prazer do clímax, neste caso tão dependente do binómio surpresa/novidade fica tão nulo como o universo descoberto pela Ray Power.

No fundo, o discurso de RoG é sobre a FC. IA's, BDO's, a genética, a singularidade, o virtual Vs real, história alternativa, e outros tropos constantes do romance, são o que preocupa a FC como um todo hoje. RoG transparece como um catálogo de itens sábiamente misturados, sob a capa de romance-mundo com estrutura só aparentemente complexa, mas de simplicidade policial. As referências às conquistas do género FC são constantes no romance, como já se deu a perceber. A sombra das ideias do movimento mundano faz-se ouvir, mas é como se estivesse a ser olimpicamente subsumido e ignorado. Contudo, tenho um bichinho que me diz que, se McDonald tivesse "ouvido" mais Brunner, o resultado talvez tivesse dado o grande passo em direcção ao absolutamente genial...assim quedou-se pela figura anglófona do "a great yarn", com pozitos de génio ocasional e um grande grande lirismo do qual o autor se recusa a abdicar. Como previsto, o publico americano é sempre menos sensivel a esse tipo de escrita, e para variar, os autores ingleses encontram nele um campo preferido. M. John Harrison, Gwyneth Jones, e o recém-falecido Ballard, são nomes que nos surgem facilmente ao pensar no texto de McDonald. Mas todos cedem perante a monumentalidade conseguida e seja como for que se olhe para o dentro deste romance, é de admirar o fresco caleidoscópio oferecido.

Nos próximos dias tentarei ainda voltar a alguns destes tópicos para os aprofundar ligeiramente.

April 26

P'linhos ao Ataque!

 
... e não, nada tenho contra e-books; antes pelo contrário.
 

Circulo de Leibowitz Newsflash

 
Enquanto se espera pela próxima crítica do River of Gods, adiada nos termos do anúncio feito no carismático blog Blade Runner, avisa-se os incautos que não puderam ler o anterior The Centauri Device, que ele se encontra à venda entre nós. Pelo menos na FNAC, mas penso que noutros sítios também, visto que a distribuidora é a Penguin). É o primeiro volume de uma nova série da Gollancz dedicada à Space Opera, cujas capas são de uma bonita atitude algo "noir" como podem verificar acima. Se gostaram das críticas do Circulo de Leibowitz, ou se quiserem confrontá-las, vão buscar o vosso exemplar :)
 
Eu por mim comprei o Stone, de Adam Roberts e o Eternal Light, de Paul McAuley. Estão na prateleira à espera do buraquinho de verme entre compromissos em que eu me possa sentar a disfrutá-los.
 
April 24

Noir e FC – uma relação frutuosa

Depois das comemorações do livro, tomem um bocado de cinema.

 

É um filme noir, ao melhor estilo da nouvelle vague, e só compreensível para quem tenha um certo sentido de época. Os conceitos FC cedem um pouco às necessidades da narrativa do próprio filme, mas não nos importamos com isso. O resultado é belo, alegórico, estranho, mas convida a inúmeras re-visualizações. Ah! E está por aí à venda baratinho, a menos de 10€.

Para uma razoável crítica, vejam esta no DVDSavant

April 18

Crítica a Ruba’iyat - Umar-I Khayyam

Após uma pequena ausência, em que devo ter andado por outras galáxias, eis que regresso com mais uma crítica no Orgia Literária, desta vez com nenhuma relação ao Fantástico ou à FC, acerca da última edição dos poemas de Omar Khayyam.

É só clicar na imagem e vão lá parar. E avisam-se os viajantes que não é propriamente uma opinião positiva…

Rubaiyat

March 27

Acerca do Dia do Livro Português

Parece que foi quarta-feira. E que li eu nesse dia?

O princípio do River of Gods e o manual do Peugeot 206.

Damn.

March 21

CIrculo de Leibowitz – The Centauri Device

The Centauri Device, por M. John Harrison

ou

Damn, what a ride! - Como eu me senti depois de uma viagem alucinogénea ao passado da FC

Colocar os olhos e os neurónios no prismático conteúdo deste livro é fazer uma viagem no tempo. Uma viagem que nos leva a várias e simultâneas realidades, como se tomássemos um cogumelo de Carrol. Ao ler este The Centauri Device, ora ficamos muito grandes, ora muito pequenos, deambulando pelos estados próprios do que nos faz humanos, na companhia de John Truck, um homem do espaço, espírito pseudo-livre ao melhor estilo easyrideriano, e de toda uma panóplia de quase amizades e impráticos inimigos no inevitável registo anglossaxónico. Mas são várias as viagens e todas, por definição, alternativas, as que se podem fazer ao dorso deste livro-mecanismo.

Acompanhar John Truck, o seu imediato Fix e o amigo Tiny Skeffern a bordo da nave My Ella Speed pelos dyno-campos da redutora Galáxia da influência humana é experimentar uma alucinação contínua, uma overdose de alegorias e metáforas para a qual nem todos estão preparados e para o que se calhar nem queremos estar (este a mau ver, a principal falha da maior parte dos críticos estrangeiros referidos no final deste artigo). The Centauri Device (TCD) é uma space opera de contornos peculiares, que subverte as principais características do género no seu modo pulp, tal como ele existia antes de M. John Harrison e da New Wave entrar ao barulho da FC. Há um império humano, batalhas espaciais, e o destino da civilização em jogo, mas a carga literária, ou melhor dizendo, o metatexto é tão rico e variado, que cedo notamos estar em território diverso do pulp, rumo à incrível riqueza da literatura, senão mesmo da Arte. Este é um livro para o qual viajamos como nas arestas e vértices de um prisma…e em que não sairemos iguais à chegada.

Uma dessas viagens, e indubitavelmente uma das mais sintomáticas, é à Grã-Bretanha de 1974. M. John Harrison não escreveu sobre outro tempo-lugar nos seus primeiros livros, e TCD é tão manifestamente um produto do zeitgeist que, para muitos leitores e ainda mais críticos, esse torna-se o grande obstáculo de análise, a grande barreira inultrapassável. Porque se é verdade que os cenários construídos nos mostram uma Terra a braços com uma luta fratricida que se estende a todo o espaço galáctico humano, a planetas estranhos como Sad Albari IV ou Stomach (deliciosamente nomeado face à grande maioria religiosa dos seus habitantes), Centauri VII ou mesmo a um asteróide anarquista de ocultada localização, em todos esses locais o que encontramos são facetas do complexo histórico-geográfico inglês que ocupa a dimensão de 1966-1973 (delimitado arbitrariamente neste caso segundo os padrões norteamericanos de historicidade social). Ou seja, estamos no início do rescaldo dos anos 60, na altura em que as ilusões societárias dos jovens cedem perante o peso emergente das drogas duras, da vitória clara e inevitável das Forças do Sistema (o establishment), e das contradições ideológicas que populam o mundo das intenções humano-politicas. Uma época com voz tão distinta e forte que ainda hoje os seus ecos se sentem, embora abafados, distorcidos e modificados. E é tudo o que ela continha que encontramos em TCD, alegoricamente disposto.

A viagem é também a um tempo possível futuro, onde as grandes preocupações politico estratégicas do princípio dos anos 70 se vêem claramente potenciadas no conflicto galáctico que opõe uma facção de inspiração israelita a outra composta de princípios árabes. Nos anos 70, a medida de forças constante entre o estado de Israel e as nações árabes vizinhas foi a principal preocupação de todo o mundo ocidental, pelo que não é de espantar. Hoje, quando vivemos a braços de uma constante preocupação terrorista árabe, e assistimos impávidos a fascizantes atitudes do estado israelita, o futuro de Harrison não parece tão descabido como isso, e o discurso da literatura como preocupação e lançar de avisos ao futuro, também não anda aqui longe, nem é despropositado.

O que nos aponta para outra das viagens simultâneas, à do confronto de ideias e sistemas de pensamento, algo que podemos ver maravilhosamente disposto na grande batalha espacial entre os decadentistas anarcas de Swinbourne Sinclair-Pater e as forças fascizantes e belicistas da coligação Israelita da IWG. Temos de delirar alucinadamente quando vemos as naves anarcas pintadas de misticismo alienígena a lançarem-se como esfomeados e iludidos lobos aos flancos da nave da IWG onde estará o famigerado Mecanismo Centauriano, mas não contarei mais pois o leitor destas palavras não merece tal “spoiler”. Registe-se o ambiente alucinado reforçado pelos próprios nomes das naves anarcas: O Jardim Esquecido, O Cravo Verde, Medici de Liverpool, Syringa, A Melancolia que Transcende Todo o Espirituosismo, e outras mais. É curioso como Harrison demonstra a perplexidade de John Truck perante a faustosidade decadente dos anarquistas, a indiferença perante a aura de chinoiserie que aparece no escritório de Pater, e tantos outros indícios que podemos encontrar nessa secção do romance. Para Truck, aquela futilidade é mesmo fútil, mas Pater acaba por ser o mais correcto, deixando-lhe nas mãos a decisão última do seu destino, que é o que no fundo Truck sempre pretendeu, mesmo quando ainda não o sabia. Pater é uma mistura de figuras de época, algo entre Baudelaire, Rimbaud e Wilde, ou seja, a figura artística por excelência que todos invejamos e que sabemos condenada à destruição – e John Truck só pode simpatizar com ele, mesmo que o não queira. A personagem será fundamental na história porque fará a Truck uma pergunta fundamental: aceitará ele a responsabilidade pela disposição do mecanismo? É a grande questão filosófica que a época do jovem Harrison herda directamente de Sartre e do existencialismo, porque mesmo não o querendo e no fim de contas, temos de nos responsabilizar por algo de fundamental, pelo destino do nosso semelhante. Despoletar ou não a bomba é o produto de uma escolha livre, que se quer livre, mas que também se quer esclarecida, e Truck, que começa a história como um personagem de contornos amorais e casuísticos, fará essa viagem interior a si próprio, também buscando o sentido para a sua fútil existência.

Ao mesmo tempo, esta é uma viagem ao coração humano. O mecanismo de centauro é a desculpa última, o locus máximo da hipocrisia: uma bomba inteligente tão poderosa que é capaz de determinar toda a existência dos actos políticos humanos. Todos os intervenientes e facções de TCD acreditam que controlar a bomba é o passo necessário para a sua vitória (à excepção dos anarquistas de Pater cujo interesse é mais de ordem negativa: se o mecanismo interessa a Alice Gaw, a general da IWG, e aos árabes da UASR, então a ele interessa-lhe frustrar-lhes os intentos)). John Truck, por um acidente genético telenovelesco, é um produto miscigenado de sangue terrestre e centauriano…e como todos os de Centauri morreram num ponto anterior à acção deste livro, ele é o único na galáxia que é capaz de accionar a bomba. Daí que o livro é também uma corrida de todas as pulsões humanas para o controlar a ele, John Truck, símbolo jovem de uma geração de valores desapossados e esventrados, mas cuja atitude maravilhada perante a existência permite-nos suspirar perante a utopia do sonho e da atitude certa. Viajamos pela galáxia com Truck, fugindo e sendo manipulados, brava e inocentemente tentando dar sentido ao mundo e em busca da atitude certa, da grande questão perante a qual Truck terá de decidir: o que fará ele com a bomba? E antes do fim do livro, também estaremos lá com ele, no momento em que como todos os mecanismos tchekovianos, a arma colocada na parede irá ser disparada.

Outra viagem, bem mais prosaica é esta: publicado nesse ano, em elemental desfecho do delírio “sixties”, TCD foi o 3º romance de Harrison, e a sua segunda tentativa de domar o género da ficção científica aos princípios reveladores da entropia, noção tão cara aos newworldsianos de Moorcock. Logo atrás estava “The Pastel City”, um fabuloso marco de fantasia contracorrente que introduziu o nome da cidade de Viriconium na longa esteira de cidades fantásticas que ainda hoje assolam os mundos imaginários da FC&F. Harrison começa TCD com nomes e marcas que ligam o livro ao seu antecessor: a acção começa em Sad al Bari IV, a caminho de um bar (uma década antes de George Lucas nos dar cena semelhante na Guerra das Estrelas) que fica no Beco do Protão (Proton Alley), nomes e localização que nos transportam de imediato a Viriconium. Ficamos portanto a saber que TCD se passa numa espécie de passado do mundo de Viriconium, uma prequela de FC à incrível diatribe de Fantasia de The Pastel City. Os livros de Harrison executam sempre um curioso baile autofágico dos seus próprios elementos e personagens (até o imediato da nave de Truck, Fix, uma anão de Crómio, nos aponta nessa direcção), numa atitude nunca directamente revelada que é típica da noção moorcockiana do Multiverso. Não poderemos esquecer que Moorcock foi quem engajou o jovem Harrison para o projecto da New Worlds, esse maravilhoso fogo criativo que pretendia dar um novo fôlego artístico, uma legitimação cultural à área pulp-isada da FC&F da época (e Harrison foi o editor literário da revista entre 1968 e 1975, o que é sintomático do seu projecto e intenções). Noções como as de multiverso e de entropia, técnicas literárias complexas e fulgurantes, apropriadas do realismo ou inventadas, são corpo presente e constante em TCD (bem como em toda a obra de M.John Harrison – ele é um filho dos sixties que se recusa a morrer, gloriosamente caminhando em direcção à sua bomba pessoal, ainda hoje, o que faz de John Truck um avatar dele próprio, e outra viagem possível para o leitor de TCD).

Um dos pontos altos do romance, e uma viagem por si só, são os acontecimentos na e em torno da Festa Mais Longa do Universo. Passa-se na Terra, e a certa altura vemos Truck ouvindo uma secundaríssima personagem: “Hirst-Sylvia a escultora biológica, fala sobre Goering, Entusiasmo e Inovação. Em plena Festa-Mais-Longa-d-Universo. Vai mostrando uma das suas obras, um pequeno animal multimorfico, que vai mudando, obviamente, de forma, como uma metáfora sem pernas. Até que se torna num cão negro que urina à vez em todos os sapatos dos presentes. E fala do (…) optimismo - o romance - da guerra fria, a promessa da tecnologia!” Um pouco a seguir Harrison junta o facto de alguém encontrar finalmente um pedaço de couro para servir de coleira ao animal, mas que este, a essa altura, já morrera. “Eles não duram muito tempo, claro – diz Hirst-Sylvia”. Como simbologia, isto tem pano para várias mangas. Mas é o ambiente pseudo-intelectual dos “seventies” em acção, com a sua lógica de “boutade” inconsequente sobre actos supostamente chocantes mas de curto alcance e que pouco mais servem do que para iluminar a vacuidade dos próprios intevenientes, muito no rescaldo do fulgor criativo dos sixties, que aqui vemos retratado. Havia, assim como no livro, uma espécie de nostalgia presente acerca do passado recente, um olhar vazio sobre o glorioso “crash-and-burn” dos sixties, uma ambiente onde a entropia se sente em “full blast” e que soa áquilo que verdadeiramente era: ressaca. Curiosamente, a Festa-Mais-Longa-do-Universo, onde se diz que gente há que lá chega a nascer, viver e morrer,sofre o ataque terminal, assim como os próprios sixties, com a desculpa das drogas e às mãos das forças da autoridade, num assalto inexorável; Truck é preso, mas escapa depois da própria prisão ser assaltada, regressando ainda à festa, que está agora móvel, e à companhia do seu chefe Chalice Verónica, o Dealer dos dealers, personagem queimada que acaba por lhe dizer o seguinte: “à sua maneira, cada um de nós, IWG e UASR, eu próprio, até esse louco do Grishkin e dos mestres da sua idiótica religião,[as facções que disputam a posse da habilidade de Truck] fazemos com que as pessoas não se lembrem que sofrem, ou que elas ficam miseráveis e confusas pela a imensidão da galáxia, pela irreversibilidade da sua própria humanidade. Não é algo que se possa manter para sempre, claro – “. A festa terminará a seguir, não porque alguém a tenha interrompido, mas porque os seus intervenientes acabam por se aborrecer de morte, o que a meu ver torna toda esta secção do romance um admirável descrever dos anos de sonho e dos anos de ressaca que durariam até à década de 80.

Daqui eu poderia passar para uma análise dos símbolos constantes no romance, como a guitarra Fender de Tiny Skeffern, “talvez o último verdadeiro artista do universo”, ou do cravo verde dos anarquistas, mas isso seria esmiuçar demais algo que já vai longo. Apenas é de notar a sua constante presença, reforçando a ideia de que neste romance absolutamente nada está por acaso. Não pode, nem deve ser lido de um jacto, mas sim como quem degusta um bom vinho – é o resultado de os anos terem passado desde 74…

O importante a reter de TCD nunca será somente restricto ao que nele é directamente dito. Há aqui uma arte algo zen do apontar sem mover um dedo, de nos forçar o olhar para que procure o sentido atrás das palavras. Não concordo com as vozes que dizem ser este um livro menor no corpus da obra de Harrison; assim como me parece que há algo de imenso, nobre e brutal nesta devastação telúrica, algo que nos deveria fazer soar os sinos da atenção e fazer-nos perpétuamente lutar mais com o texto…no fundo, parece-me um excelente livro e bem merecedor do título de clássico no género da FC. E o publico da época também o achou; devem ter tido os seus bons motivos…

Lisboa, 21 de Março de 2009

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Alguns escritores, e algumas das suas obras, exigem do leitor mais do que este é capaz de dar. Seja o simples leitor ou o experimentado crítico. Por vezes a leitura resulta, porque há níveis lúdicos em que a história também se alcandora, e que podem ser tomados como completos, totalizantes e estanques, relegando complexidades emergentes do texto para outros voos, normalmente dos “carolas” ou dos “académicos”. Mas por vezes não. Ler TCD como uma simples aventura de Space Opera é um erro e, também, impossível; fazê-lo é esbarrar constantemente numa mediania pastel que não existe e nunca existiu no próprio texto. Ler TCD como se fossemos cegos à época e ao momento em que foi escrito, ao enquadramento literário que lhe deu forma e luz, também. Ler TCD como uma simples pretenciosidade moderna é um exercício fútil que pouco nos dáe pouco recompensa.

Daí que, para além deste e dos outros textos do Círculo de Leibowitz, eu sugira uma vista de olhos à seguinte lista. Tratam-se de críticas que aparecem numa simples busca do Google sobre o livro e que a meu ver passam ao lado do que é importante…e, talvez por isso mesmo, instrutivas, tanto mais se pensarmos no impacto que TCD à época teve entre o publico leitor de FC:

Martin Lewis no SFSite

http://www.sfsite.com/04a/cd125.htm

Paul Kinkaid

http://www.paulkincaid.co.uk/Reviews/harrison-centauri.htm

John D. Owen para o Infinityplus

http://www.infinityplus.co.uk/nonfiction/viriconium.htm

Bill Johnston

http://www.cs.cmu.edu/afs/cs/usr/roboman/www/sigma/review/centauridevice.html

SFBook

http://sfbook.com/modules.php?name=News&file=article&sid=398

e também, embora este seja um artigo sobre a obra do autor, ver as opiniões de Rhys Hughes no Fantastic Metropolis sobre TCD em:

http://www.fantasticmetropolis.com/i/harrison/2/

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M. John Harrison Website

http://www.mjohnharrison.com/

Artigo da Wikipedia (que estranhamente começa por dizer que o autor só escreveu fantasias nos primeiros anos de carreira ignorando este TCD)

http://en.wikipedia.org/wiki/M._John_Harrison

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Na boca do autor:

- Citações tiradas da entrevista feita por Cheryl Morgan para o site Strange Horizons, onde há também referências a TCD):

“The world is not a L'Oréal ad.”

“Readers are not autists; they are not from Mars.”

http://www.strangehorizons.com/2003/20030609/harrison.shtml

- Afrimações retiradas da entrevista feita por David Mathew para o site Infinityplus:

“you not only shouldn't, but in the end you can't, explain things away”

"Everything since 'Running Down'" [o que inclui TCD] -- with its things falling apart, its decay, and the picture fascism champing at the bit -- "has been designed to reflect the state of Britain"

“We live in a fantasy culture, a culture of comfort. We must always have choice, even if someone else has to pay for it, even if it's not really real. We're so obsessed with this that it's an article of faith with us that 'you can be anything you want to be'. This is essentially a politics of masturbation”

“The main thing is to change: life and fiction ought to work in tandem to develop you as a human being.”

"every writer writes 'about' themselves. Once you know that, you stop trying to do it directly. That element is going to take care of itself better than you can.”

"Magic is to do with desire. Every organism lives in the gap between the desired and the possible. Human beings, caught in the same biological anxiety as a brown rat, say: What if I had it?”

“the nature of the project [de toda a sua obra]-- which has always been to frame questions, not provide answers”

http://www.infinityplus.co.uk/nonfiction/intmjh.htm

March 20

Cinema Fantástico

E depois acontecem destas coisas, assim out of the blue:

e parece que 7 dos filmes vão ser inéditos!

Eu bem me parecia que quando cá chegasse o SciFi Channel a coisa começava a correr melhor…

March 18

White & Black & Dragon

    

Música: "Way Out",
por Ellen Allien e Apparat

Realização: Gaia Bracco

A nível de escrita, ou melhor, do desenvolvimento do enredo, este video é interessante. E provoca estimulaçõezinhas engraçadas se tomado em conta com a complementaridade totalizante da música que o acompanha.

E quanto à musica em si...eu gosto.


 
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